POV DE BELLA
O sol entrou pela janela e bateu diretamente nos meus olhos, fazendo minha cabeça explodir. Eu não havia ido à aula na noite anterior. Aliás, não havia ido à aula a semana inteira.
Abri um pouco as pálpebras e me arrependi no mesmo instante, gemendo baixo:
– Droga. Merda de vida!
Levantei-me, mexendo nos cabelos e tapando a vista com a mão. Sentei no banheiro e fechei a porta. A maquiagem havia escorrido e eu parecia um urso panda. Meus cabelos estavam desgrenhados. Como eu havia chegado em casa? Nossa, há muito tempo não bebia daquela forma!
Foi a despedida de solteira Alice, minha grande amiga desde que me conhecia por gente. O casamento seria no próximo mês e eu seria sua dama de honra. Todos os preparativos já estavam concluídos, e só nos restava esperar e comemorar.
E nós fizemos isso. Bem demais, até! Arrecadamos uma boa quantia vendendo seus últimos beijos como solteira. Alice é linda e todos quiseram tirar proveito da situação. Todos menos Jacob, claro.
Jacob era o melhor amigo de meu irmão, Chase. Eu, Chase, Jacob e Alice crescemos juntos. Uma infância perfeita, digna daqueles filmes melosos que costumam passar numa tarde enfadonha de domingo. Nós quatro éramos inseparáveis. Logo, como parecia inevitável, Chase e Alice acabaram se apaixonando, assim como Jacob e eu. Brincávamos com nosso futuro, imaginando como seríamos inseparáveis para sempre. Como iríamos juntos para a faculdade, para o campus, e depois seríamos vizinhos e nossos filhos seriam amigos desde pequenos, assim como nós.
Mas a vida é uma caixinha de surpresas, e nem sempre elas são agradáveis. Pelo contrário.
Meus pais morreram em um trágico acidente de carro, quando Chase e eu tínhamos 19 e 15 anos, respectivamente. Foi uma barra difícil, e posso dizer que nunca superamos.
As primeiras semanas passaram como se eu estivesse anestesiada. Ficamos com Billy Black - pai de Jacob e melhor amigo de Charlie, meu pai. Não lembro bem como ia para a escola; como tomava banho, me arrumava, conversava com as pessoas ao meu redor - se é que conversava. Por esse motivo, não sei dizer em que ponto desses últimos anos Chase começou a se tornar uma pessoa completamente diferente daquela que conheci em minha infância... Que brincava comigo de boneca quando me sentia sozinha; que me defendia de qualquer pessoa que implicasse comigo; que dizia que eu era a irmã caçula mais linda que ele poderia desejar.
Eu ouvia as discussões de Chase com Jacob e podia sentir a tensão no ar, estática. Jacob tinha abertura total para isso: era o melhor amigo de Chase desde pequeno e, mais que nunca, eram como irmãos. Afinal, nós morávamos ali, na casa de Jake. Ele dizia que Chase estava se perdendo, e que chegaria a um ponto em que não conseguiria mais encontrar o caminho de volta.
***
TRÊS ANOS ATRÁS
– E quem disse que eu quero voltar, Jacob? - Chase gritava, as veias saltando em seu pescoço. - Eu não só não quero como não tenho para onde voltar!
– Você não sabe o que está dizendo, Chase - Jacob falou baixo, sério. Ele estava exausto daquelas dicussões, de toda aquela situação. Estava explícito nele, eu o conhecia muito bem. - Você tem que encarar o seu problema de frente, Chase. Fugir, esconder-se... Não vai adiantar, não vai te levar a lugar nenhum, cara!
– O que você sabe disso, Jacob? - Chase sorria sarcasticamente. - Virou doutor em problemas emocionais?
Jake suspirou fundo e cruzou os braços. Claramente lutava para manter a calma.
– Eu também perdi minha mãe, Chase. Sei que a sensação é terrível, um buraco negro dentro do peito. Mas é como disse: a vida continua. Merdas acontecem, coisas se quebram dentro da gente e o mundo não pára para que você conserte. A vida segue. Ou você segue com ela ou fica para trás, sabe?
Eu estava sentada no sofá, olhando para a TV ligada sem ter a mínima idéia do que estava passando na tela. Minha atenção estava totalmente voltada para a conversa dos dois.
– Fui pegar um livro dentro da sua mochila - Jacob continuou, com expressão de quem se desculpava.
– Você o quê? – Gritou Chase, suas bochechas ficando vermelhas no mesmo instante. - Agora deu para vasculhar minhas coisas, Jacob?
– Desde quando você está usando aquilo, Chase? Você sempre foi um cara limpo, careta demais, até!
O quê? Do que Jacob estava falando? O que ele encontrou na mochila de Chase? Drogas?
– Alice sabe disso? - Jacob perguntou, aproximando-se de Chase. - Duvido muito, né? Ela nunca aceitaria.
– Em primeiro lugar, Alice não sabe. Aliás, você também não saberia, se eu tivesse o mínimo de privacidade nessa merda de casa. Em segundo lugar, isso não interessa a ninguém, muito menos a ela. Nós terminamos.
– Chase, respeito! – Coloquei-me de pé num impulso, gritando. Ele não podia falar daquela forma da casa de Jacob, que tão gentilmente nos abrigou. - Temos que agradecer todos os dias por eles terem nos ajudado!
– Agradecer? Ajudado? – Meu irmão também gritou e aproximou-se, olhando-me de cima. Nossa diferença de altura sempre foi gritante. - Eu não preciso de esmola! Entendeu?
– Ei, Chase! - Jacob se colocou no meio de nós. - Calma aí, cara. Você está indo longe demais.
Chase olhou com raiva para Jacob - e com mais raiva ainda para mim. Eu não o reconhecia mais. Não existia nenhum vestígio do antigo Chase ali. Mas ele devia estar escondido em algum lugar, não é mesmo?
– Para mim deu. Chega. Estou indo embora.
Chase virou e foi em direção ao quarto que dividíamos, e eu fui atrás dele.
– Você sempre foge das conversas, Chase! - Ele não se virou para mim; estava tirando umas roupas do armário e jogando numa mochila. - Aonde você vai?
– Embora, Bella - ciciou, ainda de costas. - Não dá mais para ficar aqui.
– Embora para onde, Chase? Eu vou com você e...
– Não – meu irmão me interrompeu, secamente. - Quero ir sozinho. Preciso de um tempo para pensar, ficar só comigo mesmo, colocar as idéias em ordem... Está tudo muito confuso agora, mal posso cuidar de mim, quanto mais de você.
Não consegui responder. Senti minha garganta fechar, e meus olhos encheram-se de lágrimas tão rapidamente que, em segundos, minha face já estava molhada. Chase virou-se para mim e por um momento reconheci meu irmão na expressão triste e arrependida, de quem havia me magoado sem querer.
– Um dia eu volto, Isabella – disse ele, me abraçando. - Eu volto, e nós vamos morar juntos. Isso se você e Jacob não tiverem se casado, ainda.
Então ele voltou a ficar frio como gelo.
– Bom, é isso. Se cuida. Eu ligo assim que souber onde vou parar, ok?
Afastando-se de mim, meu irmão pegou a mochila e saiu.
***
Faz trez anos que não vejo Chase. Nos falamos esporadicamente. A última vez em que tivera notícias, ele estava em São Francisco, trabalhando como bartander.
Voltei para o quarto e me joguei na cama, mas me arrependi no mesmo momento. Minha cabeça rodava de uma forma tão horripilante, que eu podia jurar que ia colocar todos os meus órgãos para fora.
Esse era um dos males de viver sozinha.
Eu alugava um quarto na casa da Sra. Ford - uma aposentada solteirona, sem filhos, que tinha cinco gatos. O quarto era muito bom (na medida do possível) e tinha um banheiro privativo, o que era essencial.
Havia deixado de morar com Jacob algumas semanas depois que Chase fora embora. Se eu não estava sendo a melhor companhia do mundo depois da morte de meus pais, após a partida do meu irmão tornei-me uma pessoa simplesmente insuportável. No início, chorava por tudo. Depois, me fechei ainda mais, fiquei distante, nada me interessava.
Com isso, o inevitável aconteceu: Jake e eu nos afastamos e uma espécie de abismo invisível criou-se entre nós. Não que ele não tentasse: Jacob continuou sendo o amigo amoroso e gentil que sempre esteve presente em minha vida. Mas cada um de nós foi guiando seu destino... Eu o via sair para estudar, depois estudar e trabalhar, e via os amigos dele chegando em casa para reuniões descontraídas. No início eles puxavam conversa comigo, mas logo iam desistindo, ao perceber que eu não dava maiores aberturas.
E então, um dia, Jacob chegou em casa com dois amigos novos. Seth e Leah. O rapaz era muito engraçado. De longe, o amigo de Jacob mais simpático que eu já havia conhecido. A mulher era bonita. Uma beleza exótica, com a pele morena, cabelos negros e lisos. Eles tornaram-se presença constante na casa: em reuniões, jantares, almoços. Então a presença de Seth começou a ser menos constante, enquanto a de Leah só se intensificou.
***
DOIS ANOS ATRÁS
O dia na lanchonete foi exaustivo. Eu só queria chegar em casa (bom, na casa de Jacob) e colocar os pés para cima, enquanto assistia um pouco de TV para desanuviar a mente. Deixei minha bolsa em cima da mesa da sala e fui para o quarto que, desde que Chase partira, era só meu.
Chase. Que saudade eu sentia dele!
Ele havia me ligado naquele dia. Atendi o celular meio desconfiada, sem reconhecer aquele código. Quando ele se identificou, quase Infartei. Precisava contar a Jacob!
Desviei do meu quarto e fui até o quarto dele. A porta estava encostada e eu entrei, como sempre fazia desde que me entendia por gente. Jacob estava na cama, aos beijos com a tal de Leah. Fiquei ali, parada, olhando, nem sei por quanto tempo. Só sei que, quando Leah precisou parar por um segundo para tomar um pouco de fôlego, abriu os olhos e me viu. Ela pigarreou e Jacob virou-se, o olhar encontrando o meu. Pisquei várias vezes, sacudindo a cabeça e virando-me para sair dali, tudo ao mesmo tempo.
– Isabella! - Já estava dentro do meu quarto quando Jacob entrou. – Bella, me desculpe! Não queria que você descobrisse dessa forma!
Ah, que ótimo! Eu não era nenhuma imbecil. Jacob e eu não agíamos como dois namorados há muito tempo, mesmo antes de Chase ir embora. Eu ainda gostava dele, mas não podia afirmar que era nada mais do que uma forte amizade, um amor de irmãos. Mas, como mulher é um bicho estranho... Foi só eu vê-lo lá, todo entregue para uma outra mulher, que o sentimento de posse gritou alto em minha cabeça e tive que me segurar para não fazer uma cena.
– Tudo bem, Jacob - concentrei-me para falar o que era racional. - Não tem problema. Na verdade, tenho até que pedir desculpas. Não posso ficar invadindo seu quarto dessa forma e...
– Ei... Você pode entrar em meu quarto sempre que quiser, Bella. Sempre foi assim e sempre será, ouviu bem?
“Aham. Quem sabe da próxima vez eu não encontro vocês pelados. Era só o que faltava para eu não conseguir dormir nunca mais”, pensei.
– Obrigada, Jake. Mesmo.
Ele me abraçou.
– Eu te amo, Isabella. Te amei desde que te vi pela primeira vez e roubei sua boneca para chamar sua atenção, e Chase me bateu. E vou te amar para sempre, sabe? Você pode contar comigo sempre que quiser.
– Eu sei. Obrigada.
Ele beijou minha testa e saiu.
***
Naquele momento decidi que precisava emancipar-me de vez. Já que eu não tinha ninguém - que eu era, literalmente, uma pessoa só - precisava me assumir como tal.
E então eu me encontrava assim: de ressaca, mais para bêbada do que para sóbria, tendo que me arrumar para trabalhar, mas sem ânimo algum.
Meu celular tocou, e pensei que minha cabeça fosse explodir.
– Hã...? - Minha voz saiu como um gemido.
– Bella?– A voz de Alice estava ótima, como se tivesse dormido o sono dos justos durante toda a noite.– Você está bem? Que voz horrível!
– Ai, minha cabeça dóoooi, Alice! - Tentei melhorar, mas ainda gemia. – Fala!
– Quero saber se você aceita uma carona! Estou indo comprar mais umas coisinhas para o meu enxoval e...
– Alice?
A ligação caiu.
Bom, uma carona até que não seria má idéia. Levantei-me e comecei a tirar a roupa para tomar uma ducha e ir trabalhar, quando meu celular tocou de novo. Atendi sem olhar.
– Fala, Alice! A ligação caiu...
– Isabella?
Surpresa, senti uma onda de alegria percorrer meu corpo. Há quanto tempo eu não escutava aquela voz? Três meses? Quatro?
– CHASE!!! - Gritei, sem conseguir me conter. - Chase, que saudade, como você está?
– Bella, para de falar e me escuta. Eu não tenho muito tempo, ok?
Ele estava sério, como nunca antes. E estava afoito.
– Ok - foi a única coisa que consegui responder.
– Eu estou preso. Estou no presídio de São Francisco, mas sou inocente. Não posso falar muito tempo, só tenho dois minutos e você é a única pessoa que eu tenho para ligar. Não fui eu, Bella. Eu preciso de ajuda, eu...
– Vamos, rapaz! Acabou o tempo!– Ouvi alguém falando ao fundo.
– Isabella... EU PRECISO DE AJUDA!
Então a ligação caiu.
Fiquei ali, meio despida, o aparelho ainda na mão, encarando o nada. Quando o celular tocou de novo, levei um susto tão grande que deixei-o cair no chão.
– Alô! - Estava nervosa, e minha voz entregava isso.
– Calma, Bella, sou eu! A ligação caiu e...
– Alice - murmurei, ainda sem acreditar em minhas próprias palavras. - Chase acabou de ligar, ele... Ele está preso, Alice!
A última frase quase não saiu, tão embargada estava a minha voz pelas lágrimas que fechavam minha garganta.